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sábado, 4 de agosto de 2012

Técnico do Hemominas cria engenhoca para evitar desperdício de 'produtos' do sangue

Tecnologia evita perdas na separação de substâncias fundamentais para quem precisa de transfusão. Patente já foi pedida ao Inpi - Publicado pelo Estado de Minas

Luciane Evans -
Publicação: 01/08/2011 07:52 Atualização:



Leonel Ziviani com sua invenção: aparelho separa plaquetas e crio com mais qualidade e eficiência.
Como se não bastasse ter de praticamente laçar voluntários no país, onde apenas 2% da população é adepta do ato, a doação de sangue, que salva milhares de vidas, enfrenta outro desafio a ser vencido: o desperdício. Ao separar as plaquetas e o crio do sangue doado, a fração na hora da separação dos hemocomponentes muitas vezes é inferior ou superior à dose ideal para o paciente que precisa da transfusão. Quando isso ocorre, eles são descartados. 

Para mudar essa realidade, oferecendo aos bancos de sangue um aparelho de baixo custo e capaz de tornar o processo mais eficiente e fiel à qualidade dos componentes sanguíneos, evitando assim 99% das perdas, a Fundação Centro de Hematologia e Hemoterapia de Minas Gerais (Hemominas), em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado (Fapemig), pediu, pela primeira vez em sua história, patente para um equipamento com essa capacidade. O aparelho foi criado pelo técnico de patologia clínica da Hemominas Leonel Fernandes Ziviani, que deu o nome a seu invento de padronizador de crio e plaquetas.
A patente ainda está em análise pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi), que em 19 de julho publicou informações detalhadas sobre a invenção na sua Revista de Propriedade Intelectual. 
O fato sinaliza um "sim" importante para o pedido do Hemominas, fundação responsável.

 A publicação, que leva a público o passo a passo de como o aparelho foi criado, veio depois de 18 meses que o número do pedido de patente foi divulgado na mesma revista. Segundo explica o coordenador do Núcleo de Inovações Tecnológicas da Fundação Hemominas, Cláudio Botelho, a concessão da carta patente demora cerca de 10 anos. "Nos Estados Unidos, a demora é de no máximo dois anos. Mas essa espera brasileira é levada em consideração para liberação dos direitos e dos royalties", diz, satisfeito com o andamento do processo.

Mais orgulhoso está Leonel Ziviani, o inventor. Funcionário do banco de sangue em Belo Horizonte desde 1983, ele conta que a ideia surgiu em 2006, depois de perceber o desperdício no setor de separação dos hemocomponentes. Para a coleta de sangue de um doador, há três bolsas, sendo uma chamada bolsa mãe e as outras duas, satélites. Elas são interligadas por um sistema de tubos plásticos. O volume doado varia entre 405ml e 495ml, que vão para a bolsa mãe. "Dela, são separados, num aparelho que se assemelha a uma centrífuga, as hemácias e os plasmas, que vão para uma das bolsas satélites. Depois, do plasma são retiradas as plaquetas, indo para a segunda bolsa satélite. E, depois, o crio", explica Ziviani, dizendo que, para as separações, é usado, atualmente, um aparelho que comprime os sacos de sangue, o chamado extrator manual. "Mas para o processo é necessário um técnico que fique ‘de olho’ no volume de cada componente, para evitar que falte ou sobre a quantidade ideal a ser transferida para o paciente que vai recebê-lo", acrescenta.

Mas, conforme alerta Leonel, a falha humana ocorre justamente nessas etapas. Para as plaquetas, o ideal é o volume de 60ml e, para o crio, 20ml. "Então, o técnico deve estar atento na hora de ‘espremer’ os sacos e separar as quantidades de cada componente. Em caso de volume errado, o componente sanguíneo é descartado, pois o paciente que precisa de transfusão, como um hemofílico, deve receber a quantidade certa, caso contrário, corre riscos de complicações de saúde", diz. E foi pensando justamente nessa fração de erro que pode ocorrer que o técnico do Hemominas decidiu inovar, criando o padronizador de crio e plaquetas.  Ao custo de R$ 3 mil, o pequeno aparelho, capaz de salvar vidas, tem uma espécie de dispositivo que é ativado quando se consegue atingir o volume exato na extração de hemocomponentes. "Fui a uma tornearia para conseguir isso. Essa trava foi regulada com um volume único para as plaquetas e, no caso do crivo, troca-se o lado dela. Não gasta energia elétrica e não necessita de uma pessoa para ficar de olho para alcançar a quantidade exata. O aparelho é operado sozinho e não há desperdícios", comenta, dizendo que o volume é fundamental para a qualidade dos componentes sanguíneos , equilibrando PH e anticoagulantes. "Um paciente que precisa da transfusão não pode receber nem menos nem mais, tem que ser exato. Na hora da correria isso não acontece", diz.

Entenda como é feita a separação dos componentes sanguíneos

Para comprovar que seu invento tem mesmo essa vantagem sobre os demais usados nos dias de hoje, foram avaliados 371 concentrados de plaquetas e 216 crios preparados no hemocentro do Hemominas, na capital, no período de fevereiro a setembro de 2008. O padronizador substituiu os extratores manuais de hemocomponentes usados.  O invento alcançou o volume exato dos componentes em 99% dos testes. Além disso, permitiu que o técnico, que sem a invenção ficaria de vigilância para o peso dos produtos, tivesse tempo para outras atividades.


Um dos países beneficiados pela criação é possivelmente a África do Sul , que tem convênio com a fundação. 



Leonel reconhece que há equipamentos capazes de trazer o mesmo resultado, no entanto, eles "chegam a custar cerca de R$ 300 mil". De acordo com ele, esta é a grande vantagem da invenção: "É barata e eficaz. Por isso, a minha invenção será mais bem aproveitada em cidades do interior e países com menos recursos para a área", aposta, lembrando que conta com a ajuda do engenheiro Paulo Roberto Gidiani para desenvolver o projeto.


PATENTE 


A descoberta não é a única do hemocentro. Estão em processo de pedido de patente nada menos do que 12 invenções. "É um passo que o Hemominas dá para o futuro", diz, sem relevar detalhes sobre os inventos, Cláudio Botelho, coordenador do Núcleo de Inovações Tecnológicas do Hemominas. Ele lembra que o Brasil ainda tem muito a conquistar na área. "Somos o 13º no mundo em produção científica, mas estamos na 47ª posição em inovação. As pesquisas brasileiras estão focadas na produção de artigos e custam a chegar ao cidadão comum. Já o ato de inovar sai das bancadas e vai para as prateleiras. Por isso, para a fundação, como um setor público mineiro, por onde passam 90% dos sangues coletados no estado, esta primeira patente sinaliza o rumo para o futuro que queremos tomar, focando esforços na criação e manutenção de benefícios aos mineiros", comenta.


 


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